Contorcionista de 46 anos.
Tenho memórias de infância que as vezes acho que deveriam me atemorizar,mas eu não sinto dessa maneira,eu gosto muito de água, de olhar,de entrar de ficar boiando feito um Aguapé,mas na infância eu tinha o impulso de pular dentro da água,sem saber nadar,é como se ela me chamasse….
Mas sobrevivi a isso.
Das capacidades humanas,eu também sempre achei interessante os contorcionistas,e agora na vida adulta,noto que gosto muito de livros,que mesmo que não fique óbvio,falam de estratégia,guerras mesmo que tenham envolvido Fadas,Xamãs e descendente de Anjos que caçam Demônios.
Questão que além de contorcionista eu faço tudo de forma estratégica,para conseguir sobreviver eu tenho que ficar me adaptando da melhor forma que eu consigo.
Hoje passei o dia todo,consertando coisas e limpando,e como amanhã é meu aniversário, fiquei lembrando de coisas que já passei e sei que ainda vou passar na vida,já vivi em uma casa insalubre que nem deveria ter chamado de casa,numa pandemia que revirou o mundo e por 2 anos,aqui na nova casa lidei com meu fogão pegando fogo,fiquei sem fogão por mais de 3 meses pelo que me lembro,estou sem chuveiro a bem mais de 6 meses,mas pra ser sincera essas faltas,incomodam muito mais as pessoas que ficam sabendo das minhas coisas do que eu mesma.
Entendo que as pessoas gostam muito de conforto,mas eu realmente não vejo problema em me adequar as coisas,que por algum motivo, não pude resolver.
Tem uma série da década de 80 que passava na TV aberta que chamava Profissão Perigo que o personagem principal era o Macgyver ,ele só era no meu ver de hoje,um bom brasileiro com a nossa famosa gambiarra,mas eu ficava encantada com o personagem que fazia uma bomba com um chiclete…
A água se molda em torno das coisas,fazem curvas ,preenchem e também podem destruir tudo,eu me identifico bastante aliás,na minha vida se acontece algum problema eu costumo tentar resolver sem pedir ajuda,seja ela financeira ou pedindo a outra pessoa,tento consertar feito o Macgyver,e em outras áreas sou extremamente estratégica, e nisso entra meu trabalho como mãe atípica.
Sei que não tem nenhuma remuneração ser mãe, mas é trabalhoso tentar não fazer muita merda na vida de uma pessoa,que carrega seus genes,genes esses que vem dos teus antepassados.
É muito curioso em nós humanos,você um dia se apaixona por alguém,noutro firma um compromisso, um dia nasce um filho de vocês dois,mas aparentemente na nossa cultura só é a mãe, que tem o trabalho de cuidar da fusão de duas pessoas.
Se eu tivesse abandonado com o pai,poderia sofrer qualquer tipo de conotação social negativa ,mas o pai realmente não deve servir pra nada,além de colocar dinheiro no bolso dos psicólogos, se acaso você conseguir buscar ajuda,porque é tão normal um pai abandonar um filho,que todos seguimos em frente.
A questão que estou viva a 4 décadas e 6 anos,vivo em um corpo gordo,incomodado,cheio de dores,ardências,que reclama a qualquer estímulo causados,por calor por frio e até por luz solar,pessoas falando ao mesmo tempo,me deixa irritada eu tenho a necessidade de ficar sozinha quase o tempo todo.
Por ter transtorno Afetivo bipolar,posso ficar eufórica, totalmente deprimida,ansiosa,furiosa e isso pode acontecer tudo ao mesmo tempo.
Eu passei muitos anos da minha vida deprimida.
E não existem gatilhos psicológicos, e como se uma chave virasse em algum lugar no meu cérebro, posso também sentir tanto cansaço, que não é exatamente físico ,que eu fico congelada, só pensando em tudo que eu deveria fazer.
Em outros momentos pela fibromialgia, tudo dói tanto,que queria sair com um megafone mandando todo mundo ir pra puta que pariu.
Talvez o normal seria se encolher e chorar por tudo estar doendo,mas eu não consigo,sentir pena de mim a esse ponto.
Quando durmo acordo por estímulos de dor,sempre tenho pesadelos,quando era obrigada a sair de casa todo dia,me lembro de fazer contas pra saber o quanto eu poderia faltar,porque naturalmente eu nunca quero sair de casa.
Claro que eu sofro bullying desde muito pequena,e essas coisas podem ser resultado do meu estresse pós-traumático.
Mas eu sempre me senti muito ansiosa em lugares públicos e até desligava nesses lugares, porque não aguentava estar ali,óbvio que por ser da década de 80 eu nunca tive paz,pessoas realmente odeiam gordos.
Mas mesmo com tudo isso que eu sinto,com o cérebro dando defeito,eu tenho uma resiliência que eu nem sei da onde vem.
Eu tenho muita fé no horizonte,talvez por entender que a vida é feita de fases,apesar de ter dificuldade de ficar onde as pessoas estão,eu sempre tive o sentimento sincero de ajudar,tanto que com muito esforço, me formei numa profissão em que o foco é cuidar das pessoas.
Já fui ouvido das dores de pessoas que precisavam ser ouvidas,mesmo que nunca pudesse ajudar de outra forma.
E hoje aqui,neste momento, escrevendo que é outra coisa que aprendi,lendo textos e livros,acredito que faço bem o bastante para que outras pessoas leiam.
Mas sendo sincera uma parte de mim,não se importa em como as pessoas me veem,porque eu entendo que a gente só conhece o próprio mundo,assim lê os outros na língua que conhece.
E vai saber o que tem dentro da pessoa.
E eu ainda estou tentando me decifrar,eu até queria sair de mim as vezes,mas eu me importo muito com o que eu penso e que eu sinto e com as atitudes que eu tomo.
Não vou deixar de ter fé nas coisas,nem deixar de amar quem eu amo.
E realmente não sei até quando vou viver .
Mas o importante que eu ainda estou viva,capengando no momento,mas isso vai passar,como tudo que já passou.
Porque sou água que passa debaixo da ponte,
Água que hidrata,quem tem sede,
Água que rompe barreiras,
Água que faz parte de quase tudo,
Água me leva,
Água me embala,
Água traz silêncio,
Água traz calma,
Porque sou vida,enquanto vivo.
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